Descrição da foto para acessibilidade de deficientes visuais: Foto de divulgação do filme Boa Sorte, Leo Grande. Os personagens Leo, à esquerda, e Nancy, à direita, estão sentados no chão, encostados na cama. Leo, um homem negro de cabelos curtos, veste camisa, cueca e meias pretas. Nancy, uma mulher branca de cabelos claros na altura dos ombros, usa sutiã preto, saia cinza e está descalça. Ao centro, o título do filme está escrito em letras amarelas.
O filme conta a história de uma mulher de 55 anos que, após o término de um longo casamento de trinta anos, contrata um garoto de programa de 22 anos para experimentar um prazer sexual nunca alcançado em seu casamento.
A princípio, o filme se mostra perfeito. Com praticamente apenas dois personagens, consegue prender a atenção do começo ao fim. A sensibilidade, a delicadeza e a sutileza do diálogo entre Nancy Stokes (Emma Thompson) e Leo (Daryl McCormack) são o ponto alto do enredo.
É um filme que deve ser assistido por homens e mulheres, jovens e velhos, para que cada um reflita e busque evitar que suas relações sigam por caminhos semelhantes. Ele retrata os conflitos de uma mulher madura sendo resolvidos por um jovem profissional do sexo.
Enquanto ouço elogios sobre o filme, eu, uma mulher de 70 anos, levanto alguns pontos sobre questões que me incomodaram. Nancy, uma mulher de 55 anos, é interpretada por Emma Thompson, que, biologicamente, tem 66 anos. E eu pergunto: por que a personagem Nancy não poderia ser uma mulher de 66 anos?
Dez anos, nessa fase da vida, fazem grande diferença no físico e no emocional das mulheres. Aceitar seu corpo envelhecendo é um dos maiores dilemas das mulheres maduras, assim como ter coragem de se expor na frente de um homem tão jovem e belo. O físico da atriz, sem procedimentos estéticos, preenchimentos ou cirurgias plásticas, é mostrado de maneira natural, com um único significado: a aceitação do próprio corpo. Mas, certamente, aquele corpo não é o de uma mulher de 55 anos.
Logo no início, Nancy relata a lembrança de uma sutil experiência vivida na adolescência, na qual sentiu, através de um rápido toque feito por um namoradinho, que o prazer existe. Agora, ela quer ter novamente essa mesma sensação. Porém, o momento é outro; a idade tem um peso, e a maturidade adquirida ao longo da vida não é suficiente para deixá-la à vontade. Nesse processo de desejo e descobertas, há um mundo repleto de receios e insegurança.
Quem procura um garoto de programa, independentemente da idade ou experiência, sabe que encontrará um sexo rápido, possivelmente prazeroso, e sem compromisso. No início, é isso que Nancy quer: fazer tudo rápido, sentir o que procura e ir embora. No entanto, seus traumas a impedem de se entregar completamente ao rapaz.
Nesse momento, o personagem Leo cresce de forma excepcional, com sua juventude, físico atraente e atitude cativante. Ele compreende que, apesar da pressa de Nancy, ela também precisa de tempo e atenção. Com palavras sensíveis, ele verbaliza com maestria aquilo que ela precisa ouvir. Um verdadeiro profissional.
Ao longo da narrativa, acontecem três encontros antes do último. Durante essas interações, por iniciativa de Nancy, os temas da conversa se expandem para além do sexo, abrangendo assuntos como família, a mãe de Leo e os filhos dela. Isso demonstra claramente a necessidade feminina de “cuidar e proteger o homem”. Isso também comprova que, para muitas mulheres, é essencial sentir envolvimento emocional e intimidade para se entregarem ao sexo e sentirem prazer. E é exatamente esse envolvimento, em se tratando de um profissional do sexo, que pode levar ao perigo de se apaixonar e sofrer.
Devemos questionar o que teria acontecido se Leo não fosse tão sensível. O que teria acontecido se cada encontro tivesse sido com um homem diferente? O filme comprova muito mais a necessidade de satisfação emocional da mulher do que simplesmente o prazer físico. Ao final, você vê uma mulher transformada e autossuficiente, resultado de um trabalho a dois, como deve ser uma relação entre homem e mulher.