Uma viagem a Portugal que se transformou em um reencontro com a literatura — e comigo mesma.
Viajar é bom por tantos motivos — sair da rotina, aliviar o estresse, conhecer novos lugares —, mas há um aspecto que me fascina: o crescimento cultural que surge de maneira indireta, despretensiosa, como quem aprende sem perceber.
Recentemente, estive em Portugal e Espanha. Confesso que, antes de embarcar, achei que Portugal não teria muito a me ensinar. Cresci ouvindo sobre sua história, sobre o país de onde vieram tantas influências nossas. Era como visitar uma velha conhecida. Guardei esse pensamento comigo, claro — ninguém perdoaria tamanha ingenuidade. Mas foi justamente essa “certeza” que me surpreendeu diante de tanto aprendizado que tive.
E foi assim, quase sem querer, que vivi uma das experiências mais significativas da viagem — um encontro inesperado com a literatura.
A cena se deu na recepção do Hotel Paris, no Porto. Um recinto elegante, em estilo Belle Époque, com móveis escuros, luminárias deixando o ambiente aconchegante e espelhos que refletiam e ampliavam tudo a sua volta. Poltronas de couro verde distribuíam-se em harmonia pelo salão, e entre elas mesas repousavam livros — verdadeiros objetos de decoração. Chamaram-me atenção as capas duras, também verdes, com letras douradas: “Obras Completas de Eça de Queiróz.”
Foi apenas um olhar, um breve reconhecimento. Não pensei em abrir nenhum deles. Afinal, quem, em viagem, decide ler Eça de Queiróz? Um autor consagrado, sim — diplomata, cronista, romancista —, um nome repetido à exaustão nas aulas de português. Quantas vezes nossos professores recomendaram: “Leiam Eça de Queiróz”? E eu, como tantos, limitava-me aos resumos, à leitura apressada que garantia uma nota nas provas. A erudição dele, na época, parecia incompatível com a pressa da juventude.
Mas ali, diante daqueles volumes, parecia que Eça me observava, ao menos era assim que me sentia. Quase por impulso, peguei um livro aleatóriamente. O título: Ecos de Paris. Comecei a ler as primeiras páginas e, de repente, fui tomada por uma sensação antiga e nova ao mesmo tempo — o prazer puro da palavra bem escrita.
Eça falava das “multidões contemporâneas” das grandes metrópoles — Roma, Madri, Genebra, Paris — como “turba humana, mais impressionável que crítica”. Que atualidade, que elegância naquelas palavras! Aquelas frases me prenderam de um modo que jamais imaginaria. Fiquei ali, imóvel, enquanto aguardava outras pessoas para mais um passeio pela cidade do Porto, mergulhada nas linhas de um século que parecia conversar comigo.
No dia de deixar o hotel, ainda sob o encanto daquela leitura, tomei coragem para elogiar a decoração e, com certa ingenuidade, perguntei ao funcionário se poderia levar o livro comigo. A resposta negativa não me surpreendeu, mas a justificativa, sim:
— “Não pode levar, senhora. Esses livros são do acervo pessoal do proprietário. E, neste volume em especial, há um texto em que Eça de Queiróz narra fatos do período em que morou neste hotel.”
Fiquei sem palavras. Descobri, naquele instante, que havia me hospedado num lugar que guardava não apenas móveis e memórias, mas também literatura viva. Saí dali com uma alegria serena — por ter lido Eça onde ele mesmo escreveu, e por ter aprendido, mais uma vez, que o verdadeiro crescimento cultural pode acontecer assim: disfarçado de acaso.
E, falando do Hotel Paris, ele é o mais antigo do Porto. Seu estilo Belle Époque resiste ao tempo, está localizado a poucos metros da Estação de São Bento, da Igreja dos Clérigos e da Praça da Ribeira — essa última, Patrimônio Mundial da UNESCO. Um endereço histórico que, para mim, agora tem outro significado: o lugar onde redescobri Eça de Queiróz e, com ele, um pouco de mim mesma.
Respostas de 17
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Que maravilha Raquel, que história, que bom que você viveu isso! Viajar é isso, descobertas, emoções, aventuras, novas histórias pra contar ! Tudo de bom mesmo!
Oi. Lu, que bom te ver por aqui. Obrigada pela leitura e comentário.
As surpresas que se apresentam nas viagens é que nos encantam.
Viajar é um crescer maravilhoso. Parabéns pelo texto e o reencontro com Eça de Queiroz.
Oi, Helo. Obrigada pelo comentário de quem de forma indireta me ajuda a ter essas experiências. Muito mais viagens para nós.
Amei . Realmente foi um encontro maravilhoso esse entre você e Eça de Queiroz e ficar hospedada no hotel onde ele morou foi mágico
Ëncontros”como este valorizam ainda mais nossas viagens e ampliam nosso conhecimento. Feliz com o teu comentário.
“Encontros”